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As Melhores Novas Que Se Possam Imaginar

Aprofundando-nos na Doutrina

09 de setembro de 2015

Nota do Editor: Esta série examina as doutrinas fundamentais da fé cristã e suas ramificações práticas para a vida cotidiana. Anteriormente nesta série:

D. A. Carson, Jesus Vive para Sempre Intercedendo Por Ti

Sam Storms, Cristo Voltará

Robert Peterson, Adotado pelo Deus Vivo

Gregg Allison, Aquele Que Sonda Corações

Fred Sanders, A Estranhez da Trindade É Uma Coisa Boa

Randy Alcorn, Looking Forward to a Heaven We Can Imagine

John Frame, Every Hair on Your Head Is Numbered


Vários reformadores protestantes afirmaram que a justificação é a doutrina pela qual a igreja fica de pé ou cai. Quanto mais eu compreendo do evangelho, e das necessidades do meu coração decaído, mais sinto que eu tendo a ficar de pé ou a cair a cada dia, com base em se eu estou vivendo de acordo com a minha justificação. 

Por que a justificação é tão importante? Que diferença ela faz em meio a nossa rotina diária? De que maneira ela traz boas novas para o cristão sobrecarregado com uma consciência ansiosa, ou para o não-cristão acossado por uma sensação de falta de sentido? 

Para saber mais sobre a justificação, e como viver em seu poder a cada dia, entrei em contato com Tom Schreiner, professor de interpretação do Novo Testamento no Seminário Teológico Batista do Sul em Louisville, Kentucky, EUA. Aqueles de nós que ouviram com deleite a várias apresentações de Schreiner sobre a justificação na Evangelical Theological Society (ETS) ficarão satisfeitos de saber sobre seu próximo livro “Faith Alone—the doctrine of justification: what the Reformers taught … and why it still matters” [Pela fé somente—a doutrina da justificação; o que os reformadores ensinaram … e porque ela ainda importa] (Zondervan, 2015)


O que se quer dizer com a frase “justificação somente pela fé”? Onde se pode começar a pesquisar na Bíblia para aprender sobre ela?

A justificação pela fé somente significa que somos considerados justos diante de Deus pela fé, ao invés de por nossas obras. Na formulação protestante clássica da doutrina, a justificação não significa tornar justo, mas sim declarar justo. Quando falamos da justificação pela fé somente, não se segue que a fé é a nossa justiça. Pelo contrário, a nossa fé nos une a Jesus Cristo, que é a nossa justiça. A nossa justiça, então, não está em nós mesmos, mas em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. A justiça de Cristo nos é imputada pela fé de forma que o nosso perdão dos pecados e justiça sāo dons de Deus.

Os textos clássicos que sustentam esta ensino são Romanos 3.21—4.25 e Gálatas 2.16—3.14. Vemos poderosas ilustrações deste ensino no perdão da mulher pecadora por Jesus (Lucas 7.36-50) e a parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18.9-14).

Esta doutrina muitas vezes tem sido mal compreendida. Não deveríamos concluir que as boas obras são desnecessárias ou sem importância, pois as boas obras também são necessárias para a justificação. Mas elas são necessárias como o fruto ou evidência da justificação (Tiago 2.14-26). Nossas boas obras não são a base da justificação. Visto que Deus exige perfeição, a justiça de Cristo permanece como a única base de nossa justiça.

Em sua própria vida, ou em seu ministério, que diferença a doutrina da justificação pela fé somente pode fazer?

Sāo as melhores novas possíveis, pois se a justificação é somente pela fé, então há esperança para cada pecador, não importa quão longe tenham se afastado de Deus. Em meu ministério, quero anunciar regularmente as boas novas de que nossa justiça não reside em nós mesmos, mas em Jesus Cristo. Se como disse C. S. Lewis, o maior pecado é o orgulho, a justificação pela fé somente nos relembra que não temos razão para a auto-adoração, pois toda a glória, louvor e honra por estarmos em relação correta com Deus, vão para Jesus Cristo A cada dia sinto-me tentado a me gloriar e a confiar em mim mesmo, mas esta doutrina me recorda de que a minha única glória está em Jesus Cristo crucificado (Gl 6.14).

Para os cristãos que lutam com ansiedade sobre a certeza de sua salvação ou o estado de sua consciência, que diferença a justificação pela fé somente pode fazer?

Quando J. Gresham Machen, o grande erudito presbiteriano do Novo Testamento e fundador do Seminário de Westminster, estava morrendo, ele se lembrou da justificação pela fé somente. Quando pensamos sobre a morte, muitas vezes pensamos em nossos pecados e tememos o julgamento e ira de Deus. Mas o que Machen disse ao morrer foi: “Sou muito grato pela obediência ativa de Cristo. Nenhuma esperança sem ela”. Em outras palavras, antecipando seu encontro com Deus, Machen contava com a justiça de Cristo, e não com suas próprias obras.

Este é o remédio que necessitamos aplicar às nossas consciências ansiosas. Nosso apelo diante de Deus não é o que fizemos, mas o que ele fez por nós em Jesus Cristo. Quando o medo do julgamento ataca, lembramo-nos das palavras de Romanos 8.33-34. Deus não nos acusará, pois ele nos justificou em Jesus. Ele não nos condenará, pois Jesus morreu por nossos pecados, ressuscitou vindicado, e agora reina triunfante intercedendo por nós.

Existe algum sentido em que mesmo as pessoas seculares procuram ser justificadas por suas obras? Se assim for, como é que esta doutrina afeta a forma como você compartilha o evangelho com um ateu?

Todos nós, de uma forma ou de outra, tentamos validar nossas existências com base naquilo que realizamos. No fundo de nosso impulso para o sucesso, está o desejo pela auto-adoração e isto se aplica a tanto ao ateu quanto ao arquiteto. Tudo o que fazemos na vida, de como nós somos avaliados como pregadores até as notas obtidas na escola, é avaliado por nossas obras. Estas avaliações, é claro, não estão erradas. No entanto, nenhum de nós finalmente encontrará satisfação e alegria com base no que realizemos; sempre haverá um vazio, uma sensação de incompletude e uma futilidade no nosso próprio trabalho.

Assim, podemos dizer a um ateu, “Seu senso de falta de sentido na vida se deve, em parte, ao desejo de se fazer grande. Você nunca encontrará significado e alegria desta forma, porque há somente Um que é verdadeiramente grande; há somente Um que merece toda a nossa adoração e louvor. Você só encontrará descanso quando descansar nele e na justiça que ele dá àqueles que confiam nele.”

Martinho Lutero escreveu: “O artigo de justificação deve ser soado em nossos ouvidos incessantemente, porque a fragilidade da nossa carne não nos permitirá tomar posse dele perfeitamente e crer de todo o nosso coração”. Que conselho você daria para ajudar esta verdade a se aprofundar mais em nossas mentes e corações?

Lutero disse também que devemos reconhecer que nós nunca somos mestres desta verdade, mas sempre alunos. Não é uma fórmula que podemos reproduzir. Aprendemos sobre a justificação pela fé somente na fornalha da vida. Reconheçamos que somos propensos a esquecer esta verdade. Não somos justificados como pessoas que compreendem perfeitamente ou vivem a verdade da justificação pela fé somente. Esquecemo-nos disto constantemente! Nós nos esforçamos e lutamos, e então percebemos de novo e de novo como o Espírito Santo trabalha em nossos corações: “Nada na minha mão eu trago / simplesmente à Tua cruz me apego”.

A meditação diária no evangelho e nas Escrituras ajuda. Ler o grande comentário de Lutero de 1535 sobre Gálatas também auxilia. Ouvir regularmente a Palavra de Deus fielmente pregada é um grande benefício. Necessitamos de lembretes diários da nossa pobreza e das nossas riquezas. Se alguma vez pensarmos que somos graduados desta escola, estamos em perigo mortal de esquecer que somos justificados pela fé somente. Felizmente, Deus traz provações para nos lembrar, e, como Lutero disse perto da sua morte, “somos mendigos. Isto é verdade.”

A doutrina da justificação pela fé somente passa por muita controvérsia na igreja recentemente, especialmente em relação à chamada “nova perspectiva sobre Paulo”. Você poderia recomendar alguns recursos para as pessoas que querem se envolver nesta discussão?

O melhor livro longo para se familiarizar com a questão é o de Stephen Westerholm “Pespectives Old and New on Paul: The 'Lutheran' Paul and His Critics [Antigas e Novas Perspectivas sobre Paulo: O Paulo “Luterano” e seus críticos] (Eerdmans, 2003). Creio que o melhor livro curto é um mais recente de Westerhom: Justification Reconsidered: Rethinking a Pauline Theme [Reconsiderando a Justificação: Repensando um tema paulino] (Eerdmans, 2013).

Traduzido por Guilherme Cordeiro

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