Deus me chamou para ser pastor enquanto estava sob o ministério de pregação de Creflo A. Dollar.

Fui criado na tradição carismática. Cristo me chamou para si mesmo numa igreja Word of Faith [Palavra de Fé] em Roebuck, Alabama, EUA. Lá fui apresentado a Jesus através do ministério de Gospel Bill, Donnie McClurkin, e interpretações de “O Campeão”, de Carman, por manipuladores de marionetes. Meu amor pelas Escrituras nasceu na igreja carismática. Meu amor pela igreja começou ali. No entanto, minha vida mudou na igreja carismática principalmente por causa da pregação do evangelho. 

As críticas à tradição carismática são inúmeras, muitas vezes feitas por pessoas que passaram pouco tempo dentro dela. Ao invés de se darem conta de que a fatia de crescimento mais rápida do cristianismo global pertence à tradição pentecostal, e em humildade, aprender com ela, prevalece a demonização persistente da igreja carismática. Creio que não devemos criticar aquilo que primeiro nāo compreendemos.

Primórdios na Rua Azusa

O movimento carismático surgiu dos avivamentos da rua Azusa de 1906 a 1915, liderado por William Seymour. Numa época em que havia segregação racial forte, a Rua Azusa ostentava multidões multi-étnicas e de múltiplas idades, tornando-se uma testemunha precoce do poder unificador de Deus. Nascido numa missão apostólica em Los Angeles, o pentecostalismo cresceu constantemente ao longo do século XX.

Os primeiros carismáticos valorizavam a santidade, o amor pela Palavra de Deus e a adoração expressiva, comum em denominações predominantemente afro-americanas. Várias denominações surgiram deste solo, incluindo a Church of God [Igreja de Deus] (Cleveland, Tennessee), as Assembleias de Deus, e a Igreja de Deus em Cristo. Conforme crescia a tradição, cresciam também seus rebentos. Infelizmente, devido ao surgimento do evangelho da prosperidade, segmentos do movimento pentecostal/carismático moderno (MPCM) se deformaram numa imitação grotesca de sua progenitora. Ao longo do século 20, as células de pentecostalismo, incluindo a igreja Word of Faith, surgiram em todo o globo, cada uma buscando uma experiência mais significativa de Deus.

A ascensão meteórica de algumas igrejas de MPCM, como a Hillsong e a Bethel (Redding, Califórnia) tem cativado uma parcela do cristianismo, capitalizando no desejo de muitos cristãos por uma adoração apaixonada. Hillsong, Bethel e igrejas semelhantes oferecem uma experiência de Deus, não apenas uma compreensão didática sobre ele. Nossos irmãos e irmãs carismáticos capturaram uma experiência que parece alimentar a afeição por Deus, e devemos prestar atenção nisto.

Influência Pietista

O culto carismático está enraizado no pietismo radical que apareceu no século XVII após Philipp Jakob Spener (1635-1705) e August Hermann Francke (1663-1727) buscarem reavivar o luteranismo confessional. Seu objetivo era a renovação espiritual, caracterizada por uma resposta emocional ao evangelho, que incutiria no crente uma fé viva, focada no amor ao próximo. Estas raízes pietistas ajudam a sustentar a árvore MPCM.

Os carismáticos modernos devem sua existência à influência deste ramo do pietismo moraviano sobre John Wesley (1703-1791). Sua conversão em 24 de maio de 1738, em Aldersgate, exemplificou esta interação entre fé e sentimento. Como Wesley famosamente testemunhou: “Senti meu coração estranhamente aquecido”.

A conversão de Wesley foi comprovadamente pietista: uma renovação espiritual caracterizada por uma resposta emocional. Os carismáticos modernos fazem parte de uma longa linhagem de cristãos que buscam infundir afeições expressivas na adoração. Meu próprio afeto por Jesus foi renovado, e milhões de crentes já foram edificados, pela pregação e pelos esforços de igrejas carismáticas.

Reforma Pessoal

Como estudante de segundo ano na faculdade, fui discipulado por um homem Afro-Americano reformado, que me desafiou a estudar a Escritura além do só miná-la, em busca de clichês banais. Ele graciosa e fielmente questionava meu pensamento não-bíblico. Nossa igreja tinha um grupo de jovens afro-americanos de teologia reformada, que me acolheram em sua comunidade.

Depois de um período de luta em oração, um novo mundo de liberdade e esperança se abriu para mim. Uma questão importante surgiu na intersecção de dois mundos muito diferentes: podem a doutrina e o mistério coexistir?

Mistura de Carne e Ossos

Embora alguns aspectos do movimento carismático sejam louváveis, há também preocupações flagrantes. Quando tive dificuldade para encontrar uma igreja que fosse meu lar durante a faculdade, meu pai me disse que às vezes escolher a igreja certa é como comer bagre frito. Come-se a carne e cospem-se os ossos.

E há tanto carne quanto ossos nos círculos carismáticos contemporâneos. Apresento três categorias de cada um.

A Carne

1. Alegria. 

Enquanto a contemplação tranquila é o modus operandi do culto em muitos contextos, as igrejas MPCM oferecem aos congregantes um local de louvores alegres e entusiásticos. Suas reuniões geralmente saúdam o crente com piadas contemporâneas, representação multi-generacional, e uma atmosfera que busca promover a liberdade e a alegria.

Embora a vida espiritual do crente seja repleta de sofrimento e dificuldades, a alegria é um mandamento bíblico (Mt 5.12; Fp 4.4). Aos crentes é ordenado que se regozijem sempre (1Ts 5.16), e o gozo é a marca distintiva do cristão (Tg 1.2). Na realidade, a fonte objetiva da alegria, permite ao crente gozar e se alegrar na comunhão com Deus, não importa a estação. 

2. Ênfase no Espírito Santo. 

Os evangélicos tradicionais frequentemente falam sobre o Espírito Santo em tons abafados. Sutilmente tememos enfatizar demasiado a pessoa e a obra do Espírito Santo.

É claro que há deturpações toscas sobre a atividade do Espírito, mas esta deficiência não dever levar igrejas a ignorarem o ensinamento das Escrituras sobre o Espírito. As implicações trinitárias na criação, na redenção e na inspiração bíblica são abundantes. Além disso, a santificação progressiva, o poder diário para crer e a prerrogativa do Espírito de se mover onde, quando e como quer são temas que os cristãos reformados devem celebrar e aprender com nossos amigos do MPCM.

3. Fascínio e reverência. 

Os carismáticos buscaram recuperar o mistério do cristianismo. Enquanto os reformadores foram taxonomistas sem precedentes (e isso era necessário) e os pietistas contribuíram com o rigor essencial para as disciplinas espirituais, nossos amigos carismáticos oferecem à igreja o porto seguro do mistério, engendrando nos fiéis o fascínio sobre Deus.

Os cristãos de tradição carismática crêem que Deus pode fazer qualquer coisa; e esperam que ele o faça. Com cada grande ato de Deus vem uma incapacidade de considerar suas obras como comuns. Descobrimos ali, no caráter incomum de Deus, a admiração, a beleza e a revereência inexplicável da Divindade.

Os Ossos

1. Primazia do Espírito Santo. 

Quando Jesus preparou seus discípulos para sua partida, ele prometeu enviar um Consolador que os capacitaria e os instruiria em sua ausência. Ele descreve o objetivo do Consolador com três palavras simples e poderosas: “Ele me glorificará” (João 16.14).

Valorizar o Espírito à custa de uma cristologia forte é considerar demasiadamente o Espírito e minimizar a Cristo. Essa ênfase exagerada coloca a tradição carismática em risco de se tornar um neo-montanismo, que deixa seus adeptos encantados por fenômenos pneumatológicos, enquanto sāo pouco impressionados pela pessoa e pela obra de Cristo.

Onde o Espírito Santo está presente, Jesus Cristo é engrandecido. 

2. Teologia do sofrimento impotente. 

Quando era criança, sempre estive cercado de culpa. Orei para que a minha tia se recuperasse de uma doença, mas ela morreu. Uma vez orei para não ser mais caçoado por causa do meu peso, mas o assédio persistiu. Aos domingos, ouvia atentamente as palavras de meu pastor e orava por perdão, pois minha fé fraca era responsável pela morte de minha tia e também pelo meu problema de peso. Tinha sempre grande expectativa mas descobria que não tinha fé ou tinha orado incorretamente.

Enquanto nossos amigos carismáticos nos encorajam a nos fascinarmos por Deus e esperar milagres, muitos carecem de uma teologia robusta do sofrimento que explique o aparente silêncio de Deus em resposta a pedidos desesperados de ajuda. O sofrimento nos é garantido deste lado do céu. Uma teologia impotente do sofrimento decorre de uma escatologia super-realizada; o conceito de que o céu pode ser sido trazido à terra agora. Ignora a luta diária necessária para conhecer a Jesus e compartilhar de seus sofrimentos (Fp 3.10). Repreender os crentes por orações fracassadas promove implicitamente uma visão de fé centrada no homem. 

Em vez de crer que o Senhor dá e tira (Jó 1.21) ou que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Romanos 8.28), alguns são levados a crer que suas petições não são eficazes porque eles mesmos são defeituosos. Uma resposta bíblica ao sofrimento, então, enfatiza a soberania de Deus e a fé que ele dá em meio à aflição. Esta resposta traz glória ao Pai, ao invés de a nós mesmos. Além disso, o sofrimento nos desmama de prazeres inferiores e nos conforma à imagem de Cristo; uma transformação que só será plenamente realizada quando ele voltar (1João 3.2).

3. Ênfase excessiva na experiência, ênfase Insuficiente na doutrina. 

Alguns carismáticos vêem a libertação da doença ou da pobreza como algo normativo para cada crente. Tudo que se necessita fazer é emitir a fórmula certa, agregar a fé correta, e Deus fará o resto. Mas esta abordagem não vê a vida através de uma lente bíblica, que explica a importância da experiência como algo que deve ser interpretado apenas pelas Escrituras. 

Um mal-entendido comum dentro do movimento carismático, envolve ver a experiência subjetiva como de vital importância na vida cristã. Valorizar a experiência acima das Escrituras resulta em doutrina ou em pensamento teológico horrorosos. Esta linha de pensamento é exemplificada em declarações tal como “Dê-me apenas Jesus”, “seminário é igual a cemitério” ou “não necessitoo de um livro para me dizer como amar a Deus”.

Embora tais sentimentos possam parecer inócuos, e há precedentes bíblicos para obras poderosas de “homens comuns não instruídos” (Atos 4.13), Pedro e João receberam o curso mais intensivo em Cristologia que o mundo já havia conhecido. Ambos se sentaram aos pés daquele que era a Palavra de Deus encarnada, e viram o mundo através de seus olhos.

Amar a Deus com coração, alma, mente e força requer que o amemos através das Escrituras em sua plenitude, não através da realidade parcial de uma experiência particular.

Amigos Eternos

A doutrina e o mistério não são mutuamente excludentes. Movimentos como o Sovereign Grace Ministries [Ministérios da Graça Soberana] e New Frontiers [Novas Fronteiras] procuram manter juntos uma cosmovisão reformada com o mistério da atividade de Deus dentre seu povo. 

Devo muito do meu ministério a William Seymour e aos reavivamentos da rua Azusa. Também devo muito do meu ministério a homens como João Calvino, Jonathan Edwards e Lemuel Haynes; e imagino que estes homens se sentem à mesa de Jesus Cristo como amigos.  


Traduzido por João Pedro Cavani